PARA LER: Cultura e dominação na obra de Salman Rushdie

Por João Barreto*

Quando falamos em dominação política, pouco se evoca a dominação cultural que ela implica. Ou seja, como a cultura é moldada em uma série de comportamentos que resultam em estruturas de poder, separando pessoas em hierarquias. Dominação remete a violência física, mas devemos lembrar também que há violência psicológica e é nessa esfera que age em particular a dominação cultural. “Os Versos Satânicos”, do escritor indiano Salman Rushdie, trata justamente disto através da ficção.

Na história, dois atores indianos, extremamente distintos, caem de um avião sobre Londres: um é afeito aos prazeres desinibidos e à galhofa, o outro ao comedimento e contenção; um é apegado à origem, o outro está decidido a tornar-se inglês. O avião fora explodido por terroristas e os personagens escapam de duas mortes: a explosão e a queda. Chegando ao chão, saudáveis e quase intactos, um se vê transmutado em demônio e outro em anjo, porque é assim a sociedade inglesa os vê. A literatura fantástica abre espaço para uma interessante metáfora: o sentimento de xenofobia existente em qualquer sociedade próspera tende a enxergar o imigrado como angelical ou demoníaco, visto que ele é o que deve ser subjugado culturalmente.

Nessa esfera, os versos satânicos do título vêm do profeta Maomé (Mahound como foi chamado derrogatoriamente por grande parte da Idade Média), quando nos dias iniciais do islamismo, proferiu os malfadados versos (no Alcorão, são os Gharanigh) em aceitação a três divindades locais da cidade politeísta em que habitava. Chamou estas divindades de anjos e esta foi sua forma de negociar a aceitação do seu culto, muito semelhante à aceitação do candomblé pelo catolicismo no Brasil, através do sincretismo. Reconhecidos por pesquisadores e acadêmicos do islamismo, os versos Gharanigh são hoje largamente ignorados como forma de preservar a religião monoteísta – uma das três maiores do mundo.

Por seu comentário crítico à dominação e sujeição impostas na esfera da cultura, Rushdie foi sentenciado à morte pelo aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini em 1989, líder religioso do mundo islâmico fundamentalista. Assim, o autor não pode pisar em teocracias islâmicas podendo ser morto por qualquer cidadão aliado à linha fundamentalista daquela religião. Dois bilhões de pessoas declaram a fé islâmica hoje no mundo. Ainda bem que apenas cerca de cem mil é de orientação fundamentalista, assim podemos continuar contando com os comentários do Salman Rushdie sobre a contemporaneidade.

“Os Versos Satânicos” é não apenas um livro muito rico em conhecimento como também uma ficção bastante divertida. Apesar das desditas pelas quais os personagens passam na Londres moderna (ex-metrópole da Índia durante o colonialismo europeu na Ásia), permanece o senso de humor na contemplação da condição humana oferecida na obra.

*Jornalista multifacetado, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e colaborador do Varal da Moda.

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