PARA LER: Mudar ou morrer

POR JOÃO BARRETO*

Publicada entre 1988 e 1996, Sandman foi uma dessas HQs, ou graphic novel (para ser mais preciso), que mudou a literatura e o próprio mundo dos quadrinhos, tanto por sua estrutura narrativa sofisticada quanto pelo elenco de ilustradores que deu forma aos personagens dos roteiros de Neil Gaiman.

Ao longo de dez arcos narrativos, conhecemos a Família dos Perpétuos, sete seres mágicos que existem porque nós vivenciamos sua existência. Do mais velho aos mais novos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo e Desespero (irmãos gêmeos) e Delírio. Cada um personifica um aspecto da existência humana: nós temos uma vida, na qual sonhamos, destruimos e desejamos e temos, nós todos, os nossos momentos de loucura e desespero.

Nos primeiros arcos da série, Sonho (o Sandman, do título) começa a perceber que sua existência é secundária à existência dos seres vivos que o imaginaram, em um exercício pós moderno de metaficção, ou ficção da ficção.

Assumir responsabilidade pelos próprios atos é a segunda grande percepção que permeia a série: você toma uma decisão, se atém a ela e arca com as consequências, mesmo que isto lhe traga prejuízos. Não existe espaço para auto-piedade, lembra a Morte, irmã mais velha de Sonho. Não existe espaço para ficar se lamentando pelo que não aconteceu ou pelo que poderia ter acontecido diferente, ela diz. Você ganha uma vida, um intervalo de tempo determinado, você vive esses anos, faz o que pode a partir do que você sabe e depois, inexoravelmente, você morre. Simples e bonito assim.

Os arcos intermediários lidam com identidade, com o que forma um indivíduo. Um indvíduo se forma por suas ações e por suas relações com outros indivíduos: o que faz de bom e de ruim por si e pelos outros. Os últimos três arcos lidam com a despedida, porque tudo morre, tudo muda, mas nem tudo necessariamente se perde, a experiência fica, o exemplo para as gerações futuras fica.

Certa vez, pediram a Neil Gaiman, criador dos Perpétuos e demais seres fantásticos que povoam o universo de Sandman para resumir a história em uma linha. Ele respondeu: Sonho decide que precisa mudar ou morrer e faz sua escolha. Gaiman também havia dito que não voltaria a escrever histórias dos Perpétuos a menos que tivesse uma boa história para contar e parece que este momento finalmente chegou.

Em anúncio na Comic Con de San Diego, California, maior e mais importante evento do mundo de quadrinhos, cinema e cultura geek, GaimananunciouatravésdaDCComics que vem aí mais uma história de Sandman, situada antes dos eventos narrados no primeiro arco da série, Prelúdios e Noturnos. Vejamos o que mais o mestre Sonho e o mestre Gaiman têm a nos ensinar sobre a vida, sendo esta a função maior da ficção.

*Jornalista multifacetado, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e colaborador do Varal da Moda.

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