PARA VER: Will & Grace

Por João Barrreto*

Diz um bróder meu, Woody Allen, que você pode contar uma mesma história na chave cômica e na chave trágica. Ele fez um filme para provar pendenga, Melinda & Melinda (2004), bem divertidinho por sinal. Outro bróder, este um pouco mais antigo, Aristóteles (Ari!), costumava dizer que na tragédia falamos de coisas sérias, de dor, perda etc e por isso tememos e sentimos compaixão pelos heróis trágicos. E, na comédia, exercemos o direito ao riso do que é inferior a todos nós, do que é ridículo, dos vícios e do que merece escárnio. Baldes e baldes de exegese depois, chegamos num ponto da cultura em que temos o tragicômico por toda parte, é como fusion food para os olhos e ouvidos. Foi pensando nisto que resolvi cutucar, nesta coluna, Will & Grace.

A série que estreou em 1998 e durou até 2006 apresenta oito temporadas com o seguinte nó narrativo: Will é um advogado gay beirando os 40, que tem uma excelente carreira, apartamento próprio, amigos fiéis, mas não é realizado porque não tem love life. Grace é uma excelente designer hétero beirando os 40, com escritório e fama no Garment District, em Manhattan – reduto fashion da Big Apple -, amigos, mas não é realizada porque não tem love life. E, ambos, embarcaram, há vinte anos, em uma amizade doentia e codependente para sublimar essa necessidade afetiva que não se cumpre: Will é definido por ser amigo de Grace e vice-versa. E estão, aparentemente, satisfeitos com essa maluquice. Porém, como é narrativa e este é o principal nó da narrativa, este conflito precisa ser resolvido a trancos e barrancos em algum momento para sanar a história.

Valendo a máxima, seria trágico se não fosse cômico, as escolhas equivocadas dos personagens estão postas na tela sob o escrutínio de um espectador perverso, que ri de material trágico (confirmando meu bróder Allen). Podemos rir da substância que compõe a tragédia, garantido que as cócegas e o mecanismo de empatia e antipatia pelos personagens esteja funcionando a gosto.

A série vale a pena por sua estrutura narrativa coesa, que segue um arco dramático bem definido, boas tiradas e riso perverso. Will e Grace não podem continuar juntos ou não conseguirão a felicidade que almejam, esta, por sua vez, é pautada exclusivamente na vida afetiva apesar de seus respectivos sucessos profissionais e outras habilidades e qualidades. Will & Grace também é um sintoma da contemporaneidade, que substituiu o amor romântico pela promessa de amizade eterna – ambas são promessas falaciosas porque tudo que tem começo também tem fim.

Outro destaque são as participações especiais de grandes nomes da cultura pop como Cher e Madonna e de atores talentosos como Chloe Sevigny, Genna Davis, Woody Harrelson, Minnie Driver e comediantes de peso como John Cleese e Gene Wilder! Pega a pipoca que vem neurose por aí!

*Jornalista multifacetado, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e colaborador do Varal da Moda.

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